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Jan 4, 2026

O Retorno do Grande Khan

Por Hindemburg Melão Jr.

Em 330 a.C., quando Alexandre, o Grande, queria livros de algum reino, ou ouro, ou controle sobre rota estratégica de comércio, ou terras, ele simplesmente tomava. Continuou sendo assim nos séculos e milênios seguintes com o Império Romano, Império Mongol, Império Britânico...

 

Em outubro de 1945, quando foi criada a ONU, depois da segunda guerra mundial, começaram a vender a ilusão de que um órgão regulador internacional impediria práticas abusivas de nações mais fortes contra as mais fracas. A utopia era de que nunca mais haveria abusos de poder.

 

O primeiro alerta amarelo sinalizando que a ONU era uma entidade figurativa, sem poder efetivo, ocorreu não muito depois, em 1956. Naquele momento, a ONU ainda fingia ter alguma autoridade e utilidade, criou a UNEF, como se isso surtisse algum efeito. Na prática, mais uma entidade ineficiente para gerar mais custo inútil.

 

Os estudos de Steven Levitt sobre como as pessoas reagem a incentivos é basicamente uma extensão dos estudos de Skinner e Pavlov sobre como os ratos reagem a incentivos. Se existe uma punição severa, os infratores evitam reincidir. Em vez de aplicar sanções severas aos infratores, a ONU criou outro órgão. A partir daí, ficou evidente que o papel real da ONU não é impedir que os países mais fortes abusem dos mais fracos. A função, além de decorativa, é garantir que os mais fracos obedeçam e sigam as regras. As normas da ONU existem apenas para os mais fracos.

 

Depois desse precedente, ficou claro que ninguém precisava respeitar a ONU, desde que tivesse poder militar e financeiro suficiente. Na sequência, ainda em 1956, a intervenção da URSS na Hungria também foi “repudiada” pela ONU, que não fez nada, nenhuma sanção. Depois Chipre 1974, Timor-Leste em 1975, Afeganistão em 1979, Iraque em 2003 e Ucrânia em 2022. Nenhum dos infratores recebeu qualquer punição efetiva.

 

A partir do momento que a impunidade se confirma como regra, o resultado natural é um regresso à lei da selva. Desde 1956, diversos alertas mudando progressivamente a coloração de amarelo para laranja e de laranja para vermelho ocorreram.

 

Em dezembro de 2025 e em janeiro de 2026, novos alertas importantes confirmaram o papel meramente figurativo da ONU e um retorno à época das barbáries medievais, começando com sequestro de navios estrangeiros, rememorando os tempos em que Francis Drake exercia a pirataria com a anuência da Coroa Britânica.

 

A diferença é que Drake era um pirata, vivia na clandestinidade, enquanto a Coroa “lavava as mãos” sobre seus crimes, não o endossando abertamente, mas também não o cerceando e... desfrutando parte dos espólios. Agora são as próprias forças militares oficiais que exercem essa função, não se importando de sujar as mãos, um ato que seria duplamente condenado por Semmelweis, tanto metaforicamente quanto literalmente.

 

Obviamente não apoio Maduro nem simpatizo com esse elemento. Eu simpatizo com Trump e apoio a maioria de suas decisões, não por afinidade política ou ideológica, mas porque me parecem sensatas. Essa decisão de invadir a Venezuela, sob uma perspectiva maquiavélica, também me parece sensata e alinhada aos interesses do povo estadunidense, mas se opõe aos interesses dos brasileiros.

 

Maduro é um tirano, acusado de narcotráfico e de instaurar uma ditadura sórdida que arruinou a economia, a educação e a civilidade, mantendo os cidadãos como reféns, dos quais cerca de 7 milhões conseguiram fugir. O problema não é destituir Maduro do poder e julgá-lo por suas ações. Os problemas são outros.

 

Em primeiro lugar, uma ação sóbria e honrada começaria removendo Maduro e promovendo uma eleição democrática que permitisse aos próprios venezuelanos decidirem quem governaria o país. Embora eu seja contra eleições – especialmente por povos que não sabem eleger governantes –, essa postura indicaria boa intenção do país intervencionista, removendo o mau governante e devolvendo soberania ao país. Mas não foi isso que os EUA fizeram. A partir do momento em que “tomaram posse do país”, de suas riquezas, de seu povo, fica evidente que nada há de boa intenção nisso.

 

E essa situação atinge diretamente o Brasil, por vários motivos:

·         A Venezuela compartilha parte da Amazônia com o Brasil.

·         Trump já deixou claro que pretende fazer o mesmo com a Colômbia e com qualquer outro país que não aceite suas condições.

·         A Colômbia também tem má reputação sobre narcotráfico, é um país pobre, sem grande poder militar, faz fronteira com Venezuela e Brasil, compartilhando parte da Amazônia.

·         Brasil possui reservas de nióbio de grande interesse para os EUA.

 

A retórica barata usada para tentar legitimar a “apropriação” da Venezuela deixa claro que não precisa de motivos reais para tais ações. Bastam pretextos razoavelmente bem articulados. Alegação de que o Brasil não está protegendo a Amazônia com a devida responsabilidade e que a UNESCO declarou o Complexo de Conservação da Amazônia Central como “Patrimônio Mundial”, embora seja claramente percebido como discurso vazio, não é pior que o discurso usado para invadir a Venezuela.

 

Embora o poder militar do Brasil não seja comparável ao dos EUA, o custo para os EUA de um conflito armado com o Brasil não justificaria tal empreendimento. Não seria uma ação de alguns minutos, como foi na Venezuela. Seria guerra prolongada, com muitas baixas de ambos os lados, e por mais excêntricas que sejam as decisões de Trump, ele não usaria armamento nuclear, portanto o conflito seria duro. Além disso, os argumentos contra Maduro eram robustos, mas contra o Brasil seria pretexto barato e provavelmente muitos países europeus e asiáticos se mobilizariam contra Trump, não por serem “bonzinhos e justos”, mas porque entenderiam que se Trump não fosse parado a tempo, cada um deles poderia ser o próximo da lista. Portanto o risco de Trump tentar fazer com o Brasil o que fez com a Venezuela e pretende fazer com a Colômbia é baixo, mas existem muitos mecanismos “pacíficos” de que ele pode se servir para uma “invasão” e “dominação” pacífica, e ocupando dois países vizinhos, é um primeiro passo nesse sentido, não apenas pelos postos estratégicos, mas também pela mensagem subliminar de que “veja, eu sou louco o suficiente, e vocês podem ser os próximos”.

 

Trump sabe que seria muito custoso tentar invadir o Brasil, mas o Brasil também sabe que seria muito mais custoso ter que lidar com um conflito dessa magnitude. Por isso se as reivindicações iniciais de Trump não foram demasiado abusivas, e provavelmente não serão no início, o mais provável é que o Brasil acabe cedendo, e depois Trump vá gradualmente aumentando a pressão e exigindo mais.

 

Quando Gengis Khan chegava em um reino que ele pretendia tomar, ele não disparava uma flecha. Primeiro ele enviava um mensageiro propondo duas alternativas:

 

1.       Rendição pacífica e pagamento de 20% de impostos, e nenhum sangue seria derramado.

2.       Ele mataria todos os homens, escravizaria todas as mulheres e crianças.

 

Enfim, é um jogo de poder sem regras, onde o Brasil é o lado mais fraco, e o recado já foi dado.

 

Outros pontos importantes a serem considerados são:

 

Ao se apropriar do petróleo venezuelano, os EUA não apenas se beneficiam diretamente como também sabotam discretamente seu maior concorrente atual, a China, que recebia 80% da produção a título de liquidação da dívida de $ 60 bi que a Venezuela tem com a China. Embora Trump já tenha declarado “eles (chineses) terão seu petróleo”, o cenário muda completamente, porque até ontem havia interesse mútuo entre China e Venezuela no comércio de petróleo, mas agora os EUA têm interesse nesse petróleo para consumo interno, podendo “generosamente” disponibilizar parte para a China, o que torna a China dependente da boa vontade dos EUA.

 

A China deve estimar que um conflito militar seria ruim para ambos, e o menos mau a curto prazo seja aceitar a “benevolência” dos EUA de continuar a disponibilizar petróleo à China. Mas obviamente a China entende o truque, e precisa tomar decisões importantes, porque não fazer nada significa “permitir” que os EUA façam o que bem entendem, sem consequência.

 

China, Europa, Japão, Índia, Austrália podem aplicar sanções comerciais aos EUA, tanto explícitas quanto veladas, mas em ambos os casos essas sanções são ruins para os dois lados. Trump sabe disso. O resto do mundo depende mais dos EUA do que o contrário. Além disso, a China está na iminência de ultrapassar os EUA, por isso decisões radicais estão sendo tomadas pelos EUA para evitar isso, ou pelo menos adiar. Ao mesmo tempo, a China viu o que aconteceu com a Rússia, que estava em ascensão, mas ao entrar numa “briga fácil” acabou sendo sabotada pelo resto do mundo, não porque fossem bonzinhos e preocupados com a Ucrânia, mas porque viam uma potência se reerguendo que rivalizaria com aquelas que dominam o mundo, especialmente os EUA. A China sabe que seu crescimento está incomodando muita gente, especialmente EUA, e precisam de uma estratégia eficaz para lidar com isso, sem entrar num conflito direto, seja militar, seja econômico.

 

Mas há uma diferença importante entre China e o resto do mundo. A China talvez seja o país com maior autonomia em caso de ruptura comercial com os EUA, mas nesse momento ainda dependem de chips produzidos nos EUA. Sem chips, toda a economia colapsa. Mas é questão de tempo, talvez menos de 5 anos, até que a China comece a produzir seus próprios chips. Quando isso acontecer, a China será quase um “planeta independente e autônomo”, portanto os EUA precisam fazer algo antes disso, enquanto ainda conservam essa vantagem estratégica na tecnologia.

 

Risco de uma guerra mundial talvez seja baixo, mas não desprezível. O Doomsday Clock é piada sem credibilidade. Usa uma escala bizarra, que já foi interpretada como ordinal, mas atualmente sabe-se que nem isso ela é. Em 1962, na crise dos mísseis cubanos, o Doomsday Clock marcou 7 minutos. Agora estava em 1,5 minutos, caiu para 1. Isso é obviamente sem sentido. O risco real em 1962 era muito maior. Portanto, embora envolvam os nomes de vários cientistas de peso para regular os números do Doomsday Clock, esses números não significam nada, servem apenas para publicidade barata.



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