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Jul 29, 2026

Não é apenas a recompensa que gera a dopamina

Ensaio de Tamara Rodrigues


Postei na comunidade Sigma e posto aqui para incentivar uma reflexão. https://www.sigmasociety.net/comunidadesigma


Hindemburg, esses dias, me fez uma pergunta: “o que gera mais dopamina no seu dia?”


Ele, como uma pessoa que parece encontrar motivação naturalmente em desafios intelectuais, levantou uma hipótese interessante: parte de um quadro depressivo pode estar relacionada à ausência de fontes que despertem esse sistema de recompensa.


A pergunta ficou na minha cabeça.


Movida pela curiosidade, comecei a ler alguns artigos científicos sobre dopamina para tentar entender melhor a raiz da motivação.


O primeiro estudo sobre o qual me debrucei foi o de Salamone e colaboradores (1994). Em um dos experimentos, os pesquisadores observaram que a liberação de dopamina aumentava enquanto ratos apertavam uma alavanca para conseguir comida, mas não quando o alimento era simplesmente oferecido. Em outro estudo da mesma linha de pesquisa, os animais precisavam escolher entre uma porção maior de comida, cujo acesso exigia transpor uma barreira, e uma porção menor obtida sem esforço. Quando a atividade dopaminérgica era reduzida, eles passavam a preferir a recompensa menor e mais fácil. A conclusão parecia clara: a dopamina não estava ligada apenas ao prazer da recompensa, mas também à disposição para se esforçar para alcançá-la.


Depois encontrei um estudo que achei ainda mais interessante. Em 1995, Zhou e Palmiter modificaram geneticamente camundongos para que não conseguissem produzir dopamina. Embora houvesse comida e água disponíveis, eles se tornavam extremamente hipoativos e deixavam de comer e beber. Quando recebiam L-DOPA, tornavam-se mais ativos em poucos minutos e voltavam a comer; com a administração continuada, chegavam a crescer quase normalmente.


Muitos desses estudos apontam para uma conclusão semelhante: a dopamina não está ligada apenas ao recebimento da recompensa, mas também à expectativa, à aprendizagem dos sinais que a anunciam e à disposição para agir para alcançá-la.


Essa ideia me lembrou de outro estudo clássico, realizado por Curt Richter (1957). No experimento original, ratos eram colocados em recipientes com água sem possibilidade de escapar. Richter observou que fatores psicológicos pareciam influenciar profundamente o tempo que os animais resistiam antes de desistir.


Com o passar dos anos, uma versão desse experimento ficou muito conhecida em livros de autoajuda e palestras motivacionais. Segundo essa versão, alguns ratos teriam desistido de nadar depois de poucos minutos. Outros, porém, foram retirados da água pouco antes de sucumbirem, permaneceram algum tempo em segurança e depois foram recolocados no recipiente. Como já haviam sido resgatados uma vez, teriam continuado nadando durante cerca de 60 horas, sustentados pela esperança de que seriam novamente salvos.


Essa história, porém, não corresponde exatamente ao que Richter descreveu. No artigo original, os ratos foram submetidos a exposições breves e repetidas, seguidas de libertação, antes do teste prolongado. Depois disso, alguns realmente nadaram durante dezenas de horas. Portanto, a versão dos livros de autoajuda não é inteiramente inventada, mas simplifica e reorganiza o experimento para produzir uma narrativa mais dramática.


Os exageros não alteram o fato de que o experimento gera uma reflexão interessante: a experiência de que uma saída é possível pode modificar profundamente a persistência de um indivíduo diante das dificuldades.


Talvez seja justamente isso que tantos estudos sobre dopamina vêm sugerindo. Não é apenas a recompensa que nos move, mas também os sinais que a anunciam e a possibilidade de alcançá-la.


Quanto a dopamina foi importante para chegarmos ao estágio de evolução em que estamos?


Revisões como a de Nieoullon (2002) e a de Salamone e Correa (2012) mostram que o sistema dopaminérgico participa da cognição, da motivação e da disposição para despender esforço. A partir disso, é razoável supor que, ao longo da evolução, mecanismos capazes de sustentar esses comportamentos tenham sido favorecidos pela seleção natural quando aumentavam as chances de sobrevivência e reprodução.


Se analisarmos com calma, faz sentido. Um animal que sentia motivação para explorar, procurar alimento, encontrar parceiros, aprender com a experiência e persistir diante das dificuldades tinha mais chances de sobreviver e deixar descendentes. A dopamina pode ter sido um dos mecanismos que impulsionaram esses comportamentos adaptativos.


Imagine um ancestral procurando alimento. Às vezes encontrava. Às vezes voltava de mãos vazias. Se desistisse depois de algumas tentativas frustradas, provavelmente teria menos chances de sobreviver. Ao longo da evolução, mecanismos que sustentavam a busca mesmo quando a recompensa era incerta tenderiam, portanto, a ser favorecidos.


Pesquisas de Kent Berridge ajudam a distinguir o prazer de receber uma recompensa da motivação para buscá-la; e estudos sobre incerteza mostram que a atividade dopaminérgica também responde à probabilidade e à imprevisibilidade das recompensas. Isso ajuda a explicar por que jogos de azar, redes sociais e notificações podem capturar tão intensamente nossa atenção.


Então talvez exista uma conclusão interessante: ter uma meta pode ser tão importante para a motivação quanto alcançá-la. O sistema dopaminérgico não atua apenas no momento da recompensa, mas também durante o percurso, quando existem expectativa, esforço e possibilidade de conquista.


Escrevo isso para despertar questionamentos.


Quais são as coisas que geram dopamina em você?


E, mais importante: você consegue direcionar esse sistema para atividades que constroem algo ou ele acaba sendo capturado por prazeres rápidos?


Continuação: https://www.sigmasociety.net/article/ias-dopamina


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