Introdução
Nos últimos dois meses, os Estados Unidos empreenderam ações militares praticamente impensáveis para quem vive no século XXI: sequestro do chefe de estado de um país e assassinato do chefe de estado e líder religioso de outro país. Esses fatos, por si, deveriam causar certa preocupação, mas a toca do coelho vai muito além disso.
Tanto a Venezuela quanto o Irã são grandes produtores de petróleo e fornecedores estratégicos para a China e para a Rússia. A partir do momento em que os Estados Unidos assumem o controle desses países, ou passam a ter um domínio substancial sobre o destino do petróleo produzido nesses países, China e Rússia passam a depender parcialmente – e cada vez mais – da boa vontade dos Estados Unidos para disponibilizar esse óleo para venda, além de depender dos preços que o novo detentor dessa commodity queira praticar.
Os Estados Unidos já deixaram claro que essas duas ações militares fazem parte de um projeto maior, visando ampliar seu controle sobre a produção de petróleo no mundo.
Privilégios dos EUA desde o final da segunda guerra mundial
Desde o acordo de Bretton Woods, de 1944, que o mundo tem uma certa dependência dos Estados Unidos, porque trocaram suas reservas em ouro por reservas em dólar. Isso significa que se os Estados Unidos quiserem imprimir dólares, como de fato ocorreu em 2008, podem fazer isso, desvalorizando os dólares que todos os países possuem e enriquecendo seus próprios cofres. A rigor, o processo é mais complexo e o efeito não é instantâneo, mas de forma simplificada, é basicamente o que acontece.
Para quem desconhece esse processo, segue uma breve explicação: o que gera inflação é a escassez relativa de bens em relação à disponibilidade de dinheiro em circulação. Se a quantidade de bens permanecer a mesma, enquanto o dinheiro em circulação aumenta, os preços sobem aproximadamente na mesma proporção, ou seja, o valor da moeda cai. Todos os países podem imprimir moeda própria, mas isso não gera riqueza porque à medida que imprimem mais dinheiro, o valor de cada cédula – seja nova ou pré-existente – cai na mesma proporção.
Todos os países do mundo possuem reservas substancias em dólares, mas os Estados Unidos são o único país com poder para imprimir dólares, então todos os outros países pagam essa conta cada vez que são impressos novos dólares.
Os países também possuem reservas em reais, ienes, francos suíços, coroas dinamarquesas e outras moedas, mas as reservas em dólares são imensamente maiores, como resquício do acordo de Bretton Woods, a tal ponto que existem mais dólares fora dos EUA do que dentro.
Em 2009, quando Obama ordenou a impressão de 1 trilhão de dólares, para reparar o “desastre” gerado em 2008, o resto do mundo pagou essa conta.
O país com o privilégio de imprimir a principal moeda usada pelo mundo pode simplesmente enriquecer quanto bem entender, às custas de empobrecer o resto do mundo. Digamos que haja 100 trilhões de dólares em circulação no mundo, dos quais 20 trilhões (20%) estão nos Estados Unidos. Se, de repente, os Estados Unidos imprimem 1 trilhão de dólares, passam a ter 21 trilhões entre um total de 101 trilhões, ou seja, passam de 20% (20/100) para 20,79% (21/101), enquanto o resto do mundo que tinha 80% (80/100) passa a ter 79,21% (80/101). Num cálculo simplificado, a humanidade perdeu cerca de 1% de seu poder de compra sobre as reservas que possuíam em dólares, enquanto os Estados Unidos enriqueceram cerca de 4%.
As vantagens dos Estados Unidos não terminam aí. Além dessa vantagem geopolítica-econômica, possuem uma importante vantagem tecnológica por dominar 75% do mercado de chips de última geração (TSMC). E, para completar, possuem o maior poder militar do mundo.
Apesar de todas essas vantagens, nas últimas décadas, a hegemonia dos Estados Unidos tem sido ameaçada pelo rápido crescimento científico, tecnológico e econômico da China, e essa ameaça se intensificou nos últimos anos com o mercado emergente de IAs. O país que tiver as melhores IAs nos próximos 10 a 20 anos dominará o mundo.
A ineficiência das IAs
As melhores IAs atuais são extremamente ineficientes, aproveitando de forma efetiva cerca de 0,1% da energia utilizada, ou seja. Dependem de pouca inteligência humana e muita força bruta baseada em dinheiro e energia, que são convertidos em poder de processamento. Não há ideias brilhantes aplicadas para otimizar o consumo. Claro que há muitas pessoas inteligentes trabalhando nisso, mas ninguém chegou perto de resolver o problema do desperdício imenso que ocorre por não sabermos como selecionar o conteúdo útil das redes neurais, como filtrar a maioria das redundâncias e incoerências. Simplesmente deixa-se a bagunça toda lá.
Existem estratégias para limpar um pouco a sujeira, como destilation, pruning, sparsity e, mais recentemente, interpretability. Mas são técnicas primitivas e quase irrelevantes, que limpam só uma parte ínfima da sujeira. Null Move Pruning é copiada do Xadrez dos anos 1990, ideia de Chrilly Donninger para o Nimzo, que eram engines de 200 kb. Agora as redes neurais estão no nível dos Tb, exigindo uma reformulação profunda nas estratégias adotadas para melhorar a eficácia. Interpretability está engatinhando, mas pode vir a produzir resultados promissores no futuro.
Como as IAs atuais dependem 99,9% de recursos (dinheiro e energia) e 0,1% de inteligência dos desenvolvedores, essa situação ressalta a importância da produção de petróleo para abastecer os datacenters.
Não é novidade que pretextos tenham sido usados pelos Estados Unidos para justificar invasões de produtores de petróleo, como ocorreu no caso do Iraque e, mais recentemente, nos casos da Venezuela e Irã.
Diante ao rápido crescimento econômico e tecnológico da China e da Índia, os Estados Unidos sentem necessidade de reforçar seu domínio para tentar prolongar o máximo possível sua hegemonia. Para isso, controlar a produção e a distribuição de petróleo se torna uma necessidade estratégica fundamental, porque em última instância, mais petróleo significa melhores IAs.
O que acontece “dentro” de redes neurais gigantescas, com dezenas de milhares de camadas e trilhões de nós, é uma bagunça imensa. Os dados que entram na rede frequentemente são processados assim: vamos fazer um cachorro quente: pegue o pão, abra a porta, acenda a luz, apague a luz, ligue a TV, verifique se a gaveta está aberta, corte o pão longitudinalmente, abra a geladeira, pegue o leite, coloque no copo, despeje o leite na gaveta, verifique se a geladeira está aberta, se estiver, pegue a salsicha, se não estiver, primeiro abra e então pegue a salsicha, coloque no pão, tire do pão, coloque no pão, tire do pão, gire a cadeira, feche a gaveta, acenda um cigarro, verifique se a salsicha está no pão, se não estiver, coloque no pão e assim sucessivamente. Na verdade, é ordens de grandeza pior do que isso, com milhares de instruções inúteis, redundantes ou incoerentes (que desfazem algo que já estava feito para depois refazer). Essas instruções consomem tempo e energia inutilmente. Seria possível fazer exatamente o que é necessário em muito menos etapas, sem nenhuma perda de qualidade.
Mas da maneira como as IAs são produzidas, não há como eliminar esses problemas, porque as redes neurais são “caixas pretas”, não há como saber a função que cada parâmetro desempenha na rede, por isso não há como remover as partes inúteis e conflitantes.
Se as redes neurais fossem otimizadas, seriam 1000 vezes melhores
Mais de 99,9% do conteúdo das redes de LLMs como GPT, Gemini e Grok é lixo. Há vários nós que repetem a mesma coisa, há vários nós que desfazem o que outros haviam feito, e depois são refeitos, e novamente desfeitos. Algumas vezes não é exatamente isso, mas é equivalente. Por exemplo: some 2, some 5, some 3, subtraia 10. Na prática, não fez nada, porque somou 10 no total e subtraiu 10. Mas gastou tempo e energia em cada operação.
É como se houvesse 1.000.000 pessoas carregando 100 sacos de batata de um depósito A para outro depósito B. Se elas trabalhassem de forma coordenada, bastaria 100 pessoas para transportar os 100 sacos em pouco tempo. Isso funcionaria se cada uma das 100 pessoas agisse de forma coordenada e razoavelmente otimizada. Mas o que acontece nessas grandes redes neurais é como se 50 pessoas tentassem pegar um mesmo saco de batatas, outras 200 pessoas tentassem pegar outro caso, e não soubessem o que fazer, ficassem caminhando a esmo. Algumas acabariam levando de A para B, mas depois chegariam outras pessoas, pegariam esse saco que já está em B, onde deveria estar, e o levam de volta de B para A. É uma bagunça imensa.
No processo de treinamento, acabam sendo selecionados grupos de pessoas que fazem isso melhor, não porque todas levem coordenadamente de A para B. Elas continuam fazendo uma bagunça, mas, em média, depois de transcorrido algum tempo, acaba havendo uma certa predominância de A para B, e no final 1.000.000 de pessoas acaba resolvendo em alguns dias o que 100 pessoas poderia fazer em alguns minutos se o processo fosse otimizado. É um processo estatístico: em média, 51 de cada 100 acaba levando de A para B, enquanto 49 de cada 100 leva de volta de B para A, e várias outras executam operações inócuas.
Quanto uma IA gasta de recursos para aprender e executar uma soma?
Esse valor de ineficiência não é chutado. Isso pode ser medido. Convém explicar um pouco melhor o que quero dizer quando afirmo que as IAs atuais são extremamente ineficazes. Um exemplo concreto é o pequeno programa disponível para nossos membros (aqui) no qual treinamos uma rede neural para aprender a fazer somas, com 1.000 etapas de treinamento e 10.000 exemplos em cada etapa. Após concluir cada etapa de treinamento, ela precisa testar sua habilidade calculando 2+2. O gráfico abaixo mostra a evolução na acurácia do cálculo com o aumento no número de etapas de treinamento.

Se fosse compilada num arquivo pb, teria 25 kb, equivalente a cerca de 30 páginas. Os dados do treinamento com 10.000.000 de exemplos teriam 1,6 Mb, um pouco maior do que a Bíblia.
Depois de treinar sobre 10.000 exemplos de somas do tipo a+b=c onde os valores de “a”, “b” e o resultado “c” são oferecidos prontos, e ao ser colocada para deduzir quanto é 2+2, ela chegou ao resultado 4,42073774. Após 10 etapas, cada etapa com 10.000 exemplo, ela deduziu que 2+2=4.02633095. Após 100 etapas, ela deduziu que 2+2=4.00232458. Após 1000 etapas, ela deduziu que 2+2=3.99979210.
Se ensinar a uma criança que saiba contar, com meia dúzia de exemplos, a criança fará 2+2=4. Esses 6 exemplos cabem em 1 ou 2 linhas. Isso porque a aprende o algoritmo de como se faz uma soma. Ela compreende o processo, ou memoriza o processo, e reduz em todos os demais casos. Para implementar um código em python que faça 2+2, também é literalmente esse espaço que ocupa: print(2+2).
O motivo pelo qual a rede neural precisa de um volume de dados muito maior é porque não usa de forma econômica e eficaz os dados disponíveis. Lc0 32.1 e Stockfish 11 colocadas na mesma máquina (CPU) ficam com aproximadamente mesma performance (cerca de 3500 de rating), entretanto Stockfish 11 tem 1,7 Mb enquanto Lc0 tem 800 Mb de DLLs e 550 Mb de arquivo pb. Lc0 é 1000 vezes maior.
Se SF alcança mesma performance com 1/1000 do tamanho, mesmo SF não sendo perfeitamente otimizado, significa que os dados utilizados por Lc0 poderiam ser sintetizados, enxugados, desambiguados, coerenciados de modo a ficar com 1/1000 do tamanho. Na prática, sabemos que embora Lc0 32.1 e SF 11 tenham performances semelhantes, SF é muito mais rápido em cálculos de variantes concretas, enquanto Lc0 é muito superior na “compreensão” de conceitos estratégicos, portanto, se o jogo de cada uma for achatado numa variável única que expresse a performance sem representar particularidades do estilo, então ambas ficam no mesmo nível de jogo.
Isso significa que poderíamos ter um GPT ou Gemini com 2 Gb em vez de 2 Tb, sem perda de qualidade, desde que fossem profundamente otimizados. O consumo de energia seria 1/1000, a demanda por hardware seria 1/1000. Ou, inversamente, seria 1000 vezes mais poderoso com o mesmo tamanho e mesmo consumo de hardware e energia.
A ineficiência é comum nos estágios iniciais de novas tecnologias
Significa que as IAs atuais estão operando a 0,1% de seu potencial, desperdiçando 99,9% da energia e do dinheiro e entregando resultados muito abaixo do que poderiam. Isso não é ruim. É normal nas etapas iniciais. Uma situação semelhante ocorreu em 1880, quando Edison começou a produzir as primeiras lâmpadas com filamento de carbono, que tinham 0,25% de eficiência, com desperdício de 99,75% da energia. Nos 100 anos seguintes, não houve muito progresso e os filamentos de tungstênio ainda tinham apenas 2% nos anos 1980. Entretanto, em 1891, Tesla já havia concebido o conceito de lâmpadas fluorescentes e já havia construído protótipos funcionais, com eficiência em torno de 5% a 10%, mas que dependia de um oscilador do tipo Tesla Coil para acender, que era um equipamento caro, tornando o produto comercialmente inviável. Poderia citar ainda o exemplo de Faraday, que descobriu como produzir trabalho mecânico a partir de energia elétrica (motor elétrico), e seu primeiro dispositivo mal conseguia girar uma colher dentro de um copo, mas atualmente existem motores com 141.000 cavalos (Siemens), equivalente a 900 motores biturbo de um Bugatti Chiron.
Por enquanto, as IAs respondem por menos de 2% do consumo de energia no mundo, mas rapidamente deve ultrapassar 20% e logo chegará perto de 100% se considerar uso direito ou indireto, pois tudo usará IA em algum nível.
Petróleo é o principal combustível das IAs
IAs atuais são imensamente ineficazes e, devido à essa ineficácia, desperdiçam quantidades imensas de energia com redundâncias e incoerências. Essa energia vem, em grande parte, da queima de petróleo. Portanto, controlar produção de petróleo é controlar o futuro, já que o futuro está sendo construído na corrida das IAs.
O petróleo move o mundo – move veículos terrestres, aéreos, marítimos, indústrias, eletrodomésticos, iluminação noturna – não é apenas o combustível das IAs, mas o rápido crescimento nas IAs criou uma nova demanda por energia que não existia até 5 anos atrás, e tudo indica que esse crescimento continuará.
O mundo sem máscaras e sem maquiagem
Nessa conjuntura, temos China e Índia em ascensão há algumas décadas, Rússia em recuperação desde a quebra em 1991 até 2022, mas começou a cair desde o início da guerra, porque o resto do mundo aproveitou a oportunidade para sabotar financeiramente a Rússia e evitar que ela voltasse a se tornar a segunda maior potência mundial.
Nenhum chefe de estado de grande potência é bobo. Todos entendem claramente que o discurso de combate ao narcotráfico e ao terrorismo é retórica moralizante para justificar a invasão de produtores de petróleo. E a tendência é que isso prossiga.
Antes da intervenção dos Estados Unidos na Venezuela e no Irã, a China e a Rússia negociavam diretamente com os presidentes desses países, sendo de interesse mútuo a venda de petróleo, porque esses países produziam muito mais do que consumiam, e para eles era conveniente vender o excesso. Além de serem países pobres, que aceitavam vender a baixos preços. A partir do momento em que os Estados Unidos assumem o controle dessa produção, o interesse em vender diminui, porque para os Estados Unidos a produção deve ser prioritariamente destinada ao consumo interno. Com um país rico no controle, o poder de barganha muda e os preços podem não permanecer tão baixos quanto eram. Interesses econômicos e militares passam a influenciar a disponibilização desse petróleo. Por enquanto, Estados Unidos estão disponibilizando, porque não interessa um conflito imediato com China e Rússia. Mas até quando?
A partir do momento que as IAs começarem a demandar mais energia e não for possível atender ao mercado mundial, os Estados Unidos terão prioridade absoluta, e podem, a qualquer momento, fechar as torneiras para o resto do mundo, ou reduzir dramaticamente a disponibilidade para exportação.
Claro, os chefes de estado da China, Rússia, Índia sabem disso. E o que isso significa? A resposta é bem simples: significa que se ficarem aguardando, sem fazer nada, os Estados Unidos vão ampliar seu domínio e deixar esses (e outros) países mais dependentes dos Estados Unidos. Isso cria um dilema imediato: se não fizer algo agora, com o passar do tempo fica cada vez mais difícil. Isso vale principalmente para Rússia, porque desde a intensificação dos conflitos com a Ucrânia, em 2022, a Rússia está num processo de enfraquecimento e empobrecimento, por isso quanto mais demorar para reagir, maior será a vantagem dos Estados Unidos no momento em que a Rússia decidir partir para o conflito. Para a China é mais complexo, porque ela tem crescido mais rapidamente que os Estados Unidos, por isso não exige pressa na reação, podendo se fortalecer mais antes de agir, porém parte desse crescimento depende do consumo de óleo, por isso, de um lado não há pressa em reagir, mas também não podem esperar demais.
Em resumo, tanto Rússia quanto China, e até mesmo Índia, ficam mais dependentes dos Estados Unidos a partir do momento que os Estados Unidos iniciam uma série de invasões em produtores de petróleo. E se não fizerem nada agora, quanto mais o tempo passar, mais difícil será fazer algo depois. Por isso se configura um clima tenso, no qual Rússia e China precisam tomar decisões rápidas sobre isso, se vão simplesmente assistir aos Estados Unidos se fortalecendo e assumindo controle da principal commodity mundial, ou se precisam reagir de alguma forma.
Tudo isso constitui uma parte importante do cenário geopolítico atual, mas tem muito mais... Trump tem 156 de QI, Netanyahu tem 180. Ambos são assessorados por pessoas também muito inteligentes e tanto eles quanto seus assessores são excelentes estrategistas. Todos eles compreendem muito bem que uma terceira guerra mundial acabaria com o mundo, não apenas para eles, mas para seus filhos e netos. Nenhum deles quer isso. Então por que Trump está se “fazendo de louco” e tomando decisões que podem provocar uma guerra mundial?
O segredo
Aqui terminam os fatos e começam minhas conjecturas. Quando Trump se encontrou com Zelensky no salão oval, em 28/2/2025, tudo que estamos observando agora já estava planejado entre Trump, Putin e Xi. Zelensky foi uma peça sacrificada nesse jogo, uma moeda de troca. Trump retira apoio militar da Ucrânia em troca de Putin não intervir quando Trump começar a invadir aliados da Rússia.
Trump provavelmente convocou reuniões com Putin e Xi para saber como eles pretendiam reagir se ele começasse a invadir Venezuela, Cuba, Colômbia, Irã e outros países que ele julgasse conveniente. Obviamente Putin e Xi se opuseram. Então Trump fez ofertas interessantes: para Putin ele ofereceu deixar de fornecer armas para a Ucrânia, em troca de Putin não retaliar nem revidar quando ele começasse as invasões. Para Xi, Trump prometeu não interferir nos negócios da China com Hong-Kong e Taiwan, desde que a China também não interviesse nos “negócios” dele no “curral” (América do Sul).
Claro que tanto China quanto Rússia precisavam adotar um posicionamento público de reprovação, mas privativamente tudo já estava combinado entre eles. Quando Zelensky foi para a reunião, o plano era bem simples: fazer uma proposta a Zelensky que ele não poderia aceitar, ou se aceitasse ele seria obrigado a entregar à Rússia o que a Rússia queria. Nos dois casos, os Estados Unidos deixariam a Rússia satisfeita, ou por encerrar o conflito na Ucrânia com um acordo vantajoso para a Rússia, ou manter o conflito, mas retirando o apoio militar dos Estados Unidos à Ucrânia. Zelensky foi usado e abusado, humilhado publicamente. Ou seja, os Estados Unidos cumpriram sua parte do acordo, removendo a proteção da Ucrânia contra Rússia. Agora era a vez de cobrar o “direito” de agir em Cuba, Venezuela, Colômbia sem intervenção russa.
Quando ocorreu aquela reunião com Zelensky, naquele momento eu não compreendi bem o que estava acontecendo. Em princípio, parecia que os Estados Unidos queriam apenas cortar custos, ou algo assim. Mas a reação da Rússia às ações na Venezuela e Irã fizeram as peças se encaixarem com clareza.
O passo seguinte era aguardar oportunidades. As invasões não eram agendadas com antecedência. A ideia era ficar de prontidão, para agir numa boa oportunidade. Quando houvesse conflitos internos substanciais, em que os Estados Unidos pudessem contar com apoio de parte da própria população local, além de não serem vistos mundialmente como vilões tirânicos, esses seriam sinais de que o momento era propício para agir. Provavelmente não havia uma ordem pré-estabelecida do tipo Venezuela—Irã—Cuba—Colômbia. O que havia era um conjunto de alvos, e o primeiro que desse sinal de vulnerabilidade, receberia a ação.
Isso explica porque China e Rússia não reagiram com a energia que seria esperada, ao assistir ações que lhes são claramente desfavoráveis comercialmente e politicamente. Porque eles já haviam recebido algo em troca. Eles apenas fizeram pronunciamentos de fachada, como também já deveria estar previamente combinado, para demonstrar seu apoio aos “parceiros” e à população em geral.
Os jogadores e as peças
EUA, China, Rússia, Europa, Japão, Reino Unido, Austrália são os jogadores que decidem quais peças mover, quais sacrificar, quais trocar. Ucrânia, Irã, Venezuela, Colômbia, Argentina, Brasil são algumas peças que podem ser mantidas, ou trocadas, ou sacrificadas, conforme os interesses dos jogadores.
A reunião com Zelensky transmitida mundialmente pela TV foi parte do show, porque o normal seria uma reunião privada. Nesse caso, precisava ser pública para que Trump “provasse” sua honestidade em cumprir sua parte do acordo, já que provavelmente não se trata de um acordo escrito e documentado. Ele precisava mostrar “veja, eu estou fazendo minha parte, podem confiar”. As reuniões de Trump com Putin não foram abertas ao público, porque estas tratavam de detalhes que precisavam ser mantidos sob sigilo.
O que tudo isso significa é que Trump não é louco e não está colocando em risco a segurança do planeta. Antes de cada uma dessas ações, ele teve conversas com os chefes das principais potências, para se certificar de que eles “aprovariam”, embora publicamente eles precisassem fingir desaprovar. Depois de negociar essas garantias e fazer as permutas adequadas, ele ficou aguardando que as oportunidades surgissem e executou as ações.
Isso obviamente não anula risco de guerra, mas o risco é baixo.
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