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Apr 5, 2026

Reflexões da Páscoa: o peso de escolher

Por Tamara Rodrigues


Pessoas com mentes inquietas são capazes de transformar frases soltas em uma verdadeira monografia.

 

Hoje, no domingo de Páscoa, fui à missa católica com meu irmão, e muito do que foi dito ali me levou a filosofar sobre diversos temas. Quando cheguei em casa, escrevi o esboço dessas ideias em uma nota no celular e mostrei ao Hindemburg. Ele disse que eram ideias demais para um texto curto. Ainda assim, decidi não suprimir nada, nem estender no estilo dele.

 

A proposta aqui é outra: pincelar temas, provocar reflexões a cada parágrafo, instigar. É quase um convite para você entrar nessa mesma onda de pensamentos — um pouco caótica, talvez até com um toque de TDAH — e seguir comigo nessa viagem apodíctica.

 

É um texto carregado de opiniões, de conexões e de provocações, justamente para mostrar a complexidade que pode surgir a partir de uma única frase.

 

Nas comemorações pagãs da Páscoa, celebrava-se o fim do inverno e a fertilidade. Essas festas têm vestígios que remontam a cerca de 1000 a.C. Posteriormente, a tradição judaica incorporou a data como o Pessach, que marca a passagem de Deus poupando as casas dos hebreus no Egito e a libertação do povo. Mais tarde, o cristianismo também incorpora esse período, associando-o à ressurreição de Cristo.

 

A Bíblia traz a narrativa de que, durante as celebrações pascais da época, o governador romano libertava um prisioneiro escolhido pelo povo — e, naquele dia, o povo escolheu Barrabás, um assassino.

 

Até aqui, já seria possível filosofar sobre inúmeros pontos e traçar paralelos com o nosso dia-a-dia. Mas o que mais me chamou atenção foi outra coisa: quantas vezes, na nossa vida, escolhemos “Barrabás” em vez de “Jesus”? Quantas vezes damos palco, relevância e até justificativa para aquilo que sabemos que não é o melhor?

 

O padre disse, durante a missa, que deveríamos, no nosso dia-a-dia, parecermo-nos mais com Jesus. Mas isso também pode ser algo perigosíssimo. Nem todos merecem que sejamos como Jesus, porque, na primeira oportunidade, muitos nos colocariam na cruz.

 

Esses que nos colocariam na cruz merecem um Deus do antigo testamento. Isso me levou a outra reflexão: o Deus do Antigo Testamento é um Deus de punições — o Deus do dilúvio, das consequências. Já o Novo Testamento traz um Deus mais voltado ao amor, ao perdão e à redenção.

 

Diante dessa diferença marcante de discurso, comecei a me questionar se a filosofia de Sócrates, Platão e Aristóteles — que viveram entre os séculos V e IV a.C.— teria influenciado, de alguma forma, alguns dos escritos do Novo Testamento.

 

Afinal, praticamente todo o território judaico da época foi conquistado por Alexandre, o Grande, que teve Aristóteles como preceptor, e estima-se que uma parcela enorme do “mundo conhecido” pelos povos do Mediterrâneo — algo entre 60% e 70% — esteve sob influência direta ou indireta de suas conquistas.

 

Na época de Jesus, embora a região já estivesse sob domínio do Império Romano, é inevitável pensar: quanto dessa herança filosófica grega ainda circulava naquele contexto? Quanto dessas ideias já estava impregnado na forma de pensar, escrever e interpretar o mundo?

 

No meio dessa linha de pensamento, lembrei-me de uma declaração ou um comentário] recente de Hindemburg, que disse: “Deus criou o livre-arbítrio como um castigo para a humanidade. Depois criou a religião para amenizar os efeitos disso.” ... “O livre-arbítrio concede às pessoas o poder de fazer o que quiserem, mas a esmagadora maioria não tem a maturidade mínima nem a moralidade mínima usufruir de forma responsável desse privilégio. Então criou a religião para orientar as pessoas sobre como deveriam agir, para evitar um caos completo.”

 

Eu acrescentaria: talvez Deus tenha criado as leis da natureza justamente para mostrar que, embora tenhamos escolhas, não podemos fazer tudo. Se nos jogarmos de um penhasco, não sairemos voando. Existe limite, existe consequência.

 

E é justamente aí que o livre-arbítrio pesa.

 

Quando se joga uma partida de xadrez, tem-se “livre-arbítrio”, mesmo que o jogo possua regras, nesse caso você pode fazer a jogada que quiser, arcando com a consequência de uma jogada ruim. Confundir livre-arbítrio com onipotência é um erro cometido por muitos, porque as pessoas querem a liberdade de escolher, mas não querem a responsabilidade de sustentar as consequências das próprias decisões.

 

Pessoas de bom caráter e boa índole sentem esse peso com mais intensidade. Porque escolher não é simples nem fácil. Cada escolha carrega uma cadeia inumerável [ou incomensurável] de consequências. Somos, de certa forma, responsáveis pelo bem e pelo mal que decorrem delas.

 

Talvez por isso foram criadas leis. Talvez seja um dos motivos de existir a religião como apoio. Como uma espécie de muleta moral. Porque, sem algum tipo de orientação, a liberdade ilimitada se tornaria insuportável.

 

Lembrei-me também de um corte que apareceu recentemente da Super Nanny, em que se dizia que crianças não devem ter tantas escolhas, porque ainda não estão desenvolvidas o suficiente para decidir o que é melhor para elas. Nesse sentido, a infância talvez seja uma das melhores fases da vida — justamente porque ainda não carregamos plenamente esse fardo de precisar decidir e da responsabilidade por nossas decisões.

 

Mesmo assim, muitos pais da chamada geração do “mimimi” acreditam que dar total liberdade de escolha às crianças é algo positivo. Mas será mesmo?

 

No Guia dos Apodícticos, Hindemburg aborda, em uma de suas análises, justamente a dificuldade que muitas pessoas — inclusive adultos — têm para fazer as melhores escolhas.

 

Em um artigo recente, sobre a verdadeira idade da descoberta da agricultura, ele menciona o experimento do marshmallow, um estudo clássico da psicologia conduzido por Walter Mischel, em Stanford, nas décadas de 1960 e 70.

 

Nesse experimento, uma criança era colocada sozinha em uma sala com um marshmallow. Ela podia comer imediatamente ou esperar alguns minutos e ganhar dois. A conclusão foi que a capacidade de adiar a gratificação está associada a melhores resultados ao longo da vida.

 

Hindemburg discute, nesse contexto, que a interpretação tradicional dos resultados do experimento está errada. O sucesso observado ao longo da vida está associado ao maior QI, que permite fazer análises mais inteligentes e, consequentemente, tomar melhores decisões. É um erro acreditar que todas as vezes seria mais vantajoso escolher a maior recompensa no futuro. Algumas vezes a melhor escolha é trocar a menor recompensa imediata por uma maior no futuro, mas outras vezes é o contrário, e a inteligência é o que aumenta as chances de analisar melhor cada situação e fazer a melhor escolha. As pessoas querem regras fáceis que não precisem pensar, mas o mundo não é assim.

 

E ali estava eu, no meio da missa, refletindo sobre tudo isso: escolhas, livre-arbítrio, a dificuldade de fazer o certo, o peso de ser responsável pelas próprias decisões, sobre tentar ser mais como Jesus, sobre qual “Deus” – do antigo ou novo testamento – o mundo parece merecer, sobre filosofia, sobre consciência.

 

Foi então que me lembrei de algo muito interessante da biografia de Sócrates.

 

Dizem que chegou em Atenas um homem que se dizia capaz de julgar o caráter das pessoas apenas pela aparência. Ao saber disso, os discípulos de Sócrates pediram a ele que descrevesse Sócrates — um homem que, segundo relatos, tinha uma aparência considerada feia para os padrões da época.

 

O forasteiro aceitou e, sem saber de quem se tratava, fez uma descrição surpreendente: disse que Sócrates parecia alguém impulsivo, incapaz de conter seus apetites carnais, emocionalmente instável — praticamente o oposto da imagem de um sábio virtuoso que seus discípulos tinham dele.

 

Diante da disparidade entre a descrição e o que eles sabiam sobre Sócrates, começaram a rir do charlatanismo do forasteiro. Mas Sócrates, com calma, disse a seus discípulos: “não riam. Ele está certo. Vocês não fazem ideia do quanto eu luto todos os dias para não ser como ele diz.”

 

Esse trecho costuma ser interpretado como um exemplo de humildade. Mas talvez seja algo ainda mais profundo: consciência, autoconhecimento, honestidade...

 

Não sobre quem você aparenta ser, mas sobre aquilo que você poderia se tornar se não estivesse atento.

 

Sócrates não se via como naturalmente virtuoso. Ele se via em constante construção. Em permanente combate interno.

 

E talvez seja isso que define alguém verdadeiramente sábio: não a ausência de falhas, mas a lucidez de reconhecê-las — e a disciplina de não se deixar levar por elas.

 

Quantos têm essa lucidez? Quantos se conhecem o suficiente para entender seus próprios limites?

 

Saí da missa com tantas ideias na cabeça que precisei escrever. Talvez para organizar meus pensamentos. Talvez para dividir. Talvez para fazer alguém refletir, nem que seja por alguns minutos, sobre o que estamos comemorando hoje — e sobre o que precisamos lutar para ser amanhã.


Feliz Páscoa!

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